Do funk à bossa nova, o Brasil vai ganhando cada vez mais espaço na sonoridade do K-pop.
Por Guilherme Campos
| ENHYPEN e Luísa Sonza (Pam Martins) |
Foi-se o tempo em que a proximidade do público brasileiro com os idols coreanos se resumia a apresentações pontuais em pequenas casas de show, menções breves ao Brasil em programas de variedades e palavras soltas em português durante transmissões ao vivo (quase sempre, o clássico eu te amo).
Com o crescimento da Hallyu, a chamada “Onda Coreana”, a expansão cultural do país ultrapassou barreiras linguísticas e começou a fazer parte do cotidiano brasileiro. Restaurantes coreanos se tornaram comuns, e quem não quer comer o famoso hot dog agridoce no palito? Ou a massinha de arroz banhada em molho apimentado, o tteokbokki?
As pessoas conversam sobre doramas nos ônibus, e ficam ansiosas pelos capítulos semanais. Nas ruas, os photocards andam pendurados nas mochilas, bolsas e nos cós das calças, obrigando quem passa a inclinar o pescoço para identificar o idol estampado.
Mas, apesar da influência em diversos campos, é impossível falar sobre a expansão coreana sem citar o K-pop, que é uma enorme porta de entrada para o interesse pela cultura do país.
Repleto de músicas envolventes, coreografias marcantes, clipes muito bem produzidos e uma organização diferente do pop ocidental, o K-pop caiu no gosto do público global e vem criando tendências.
A incorporação de ritmos diferentes também é algo memorável no K-pop, e não é incomum encontrar batidas de reggaeton, hip hop, R&B e, entre tantos outros gêneros, ritmos brasileiros, como a bossa nova e o funk.
| P1harmony - Divulgação / FNC Entertainment. |
Visto que o K-pop já é marcado por coletâneas de referências, mas que, mesmo assim, nunca deixou de ser original, a inserção dos ritmos brasileiros não é exatamente uma grande novidade. O que brilha aos olhos, na real, é a forma como esses sons vêm aparecendo, aliada à frequência de novas músicas coreanas que mergulham nesses ritmos.
Um momento muito importante para selar essa união foi a colaboração entre Anitta e TXT. Back for More foi lançado em setembro de 2023, mas a primeira apresentação aconteceu ao vivo na premiação do VMA, carimbando assim um marco entre o pop brasileiro e coreano, mesmo que, infelizmente, nenhum dos envolvidos cante em seus idiomas originais.
Além da música, Anitta viajou para a Coreia e visitou o prédio da Hybe — empresa que gere o TXT e vários outros grupos conhecidos, como BTS e Le Sserafim —, apresentando comidas típicas brasileiras aos idols e estabelecendo uma relação de amizade que perdura até os dias atuais. Nesse ponto, as portas para colaborações se abriram ainda mais.
| TXT e Anitta - Divulgação / Big Hit Music |
Porém, as interações não se limitaram apenas às músicas: o NMIXX marcou presença no Carnaval paulista, cantou seus maiores sucessos em cima do trio elétrico do Bloco da Pabllo e, em dado momento, até dançaram no chão em meio aos foliões.
| Reprodução: Instagram NMIXX. O grupo com Pabllo Vittar no Carnaval de São Paulo. |
É importante ressaltar que o funk presente nas músicas de K-pop atuais tem grande influência das trends em redes sociais, principalmente do Tiktok. O boom do passinho do jamal foi compartilhado em êxtase pelos idols, e outras coreografias brasileiras também deram as caras nas postagens dos grupos.
Essa forma de interação deixa claro o poder do público brasileiro nos engajamentos, criando retorno não só em curtidas, mas também na influência do que os próprios idols reproduzem.
Exemplos recentes da incorporação de funk no K-pop aparece em músicas como Loverboy, do girlgroup Ifeye, Ceremony, do Stray Kids, e Iffy iffy, do Le Sserafim, que tem produção brasileira de Kondzilla em sua composição sonora.
| Stray Kids - Divulgação. O grupo marca presença no Rock in Rio como o primeiro ato sul-coreano a ocupar a posição de headliner do festival. |
Um caso famoso é o da música Alcohol-Free, do TWICE, em que a atmosfera de verão é intensificada com os toques suaves da bossa nova. Porém, essa interação não ocorreu por acaso, já que J.Y. Park, um dos principais nomes por trás da empresa responsável pelo TWICE, a JYP Entertainment, citou ser fã de nomes como, João Gilberto, Tom Jobim e Nara Leão, grandes mestres do gênero.
Mais recentemente, o grupo Tuide também incorporou os acordes refrescantes da bossa nova ao som jovem de seu debut, Sun Kiss.
A bossa nova carrega uma notoriedade internacional construída a décadas e é um dos gêneros brasileiros mais conhecidos mundialmente, fazendo parte de um repertório amplamente reinterpretado em vários países.
Contudo, nada disso tira o mérito do funk, que vem crescendo de forma impressionante durante os últimos anos e aproveitando das redes muito sabiamente para a circulação e popularização do gênero.
É nesse contexto que chega a colaboração mais recente, e talvez uma das mais interessantes, entre os dois países: a música Bloody Paradise, do ENHYPEN, em parceria com Luísa Sonza.
Apesar de a participação da cantora transformar a faixa em um contato direto entre os dois mercados, a canção já apresentava os ritmos do funk em seu arranjo antes mesmo da entrada de Luísa.
A própria Hybe já demonstrava a música como a adição do brazilian funk aos sons do ENHYPEN, deixando claro que a sonoridade brasileira não aconteceu exclusivamente por causa do feat.
Vale lembrar que na versão solo da faixa Knife, composta pelo integrante Sunghoon, o funk brasileiro também ganhou destaque, indicando que o interesse do grupo pelo gênero estava sendo construído.
| Luísa Sonza e ENHYPEN (Foto: Pam Martins / Divulgação) |
Quarenta graus, teu pulso acelerouCalor carnal, menina veneno
[...]
Teu caos sedutor, teu Carnaval
A letra cantada por Luísa faz menção ao Brasil não apenas por apresentar o Carnaval, mas por incorporar duas músicas muito presentes no imaginário brasileiro, que são: Rio 40 Graus, de Fernanda Abreu, e Menina Veneno, de Ritchie.
A presença das referências, portanto, reforça um senso de conexão com a cultura brasileira, especialmente por esse trecho ser cantado integralmente em português.
São colaborações como essas que ajudam a estreitar a ponte entre Brasil e Coreia do Sul. Embora possa se questionar se a proximidade é apenas uma tendência passageira, não é possível resumir a relação entre as duas culturas a um simples fenômeno recente das redes sociais.
A aproximação vem ocorrendo há anos, por diferentes caminhos e em diferentes momentos, mantendo-se forte mesmo diante das mudanças nas tendências do pop. Por isso, mais do que uma relação superficial, o diálogo entre os ritmos brasileiros e a cultura coreana já se mostrou capaz de superar a passagem do tempo, e tudo indica que essa ponte continuará se fortalecendo ao longo dos anos.