Resenha | A distopia do cotidiano de Afonso Cruz

Afonso Cruz nos oferece uma obra que utiliza a poesia para investigar a si mesma, destacando-a como agente de mudança.

Por Eduarda Sena


O escritor português Afonso Cruz (Paulo Sousa Coelho/Divulgação)

A obra do português Afonso Cruz, “Vamos comprar um poeta”, publicada em 2020, retrata uma realidade lógica e utilitarista onde o mundo é medido por números e valor de mercado. 

O modo como as pessoas se relacionam e compreendem a vida é vazio de furor poético, e aqueles que detêm a sensibilidade artística, o poeta e o artista, são vendidos em lojas e domesticados como um produto exótico, sem função para aquela realidade.

Embora a família que acompanhamos ainda se trate entre si a partir de suas funções (como pai, mãe, filho e irmão), o leitor é introduzido a esta realidade metrificada e materialista, em que os personagens não são identificados por nomes, mas por números. 

No início, com a chegada do poeta adquirido pela família, as falas metafóricas e estranhas do artista causam estranheza, mas, ao longo da obra, deixam aquelas pessoas curiosas. 

A partir disso, a poesia, vista e compartilhada pelo poeta, as deixa desconfortáveis em suas próprias vidas.

O gênero distopia utiliza alguns elementos como o cenário futurístico, a desigualdade, a vigilância, o sistema totalitário ou a falta de liberdade para retratar uma sociedade imaginária ou absurda, que busca criticar problemas do mundo real. 

Entre as maiores distopias do cinema, temos as adaptações literárias Blade Runner (1982), Matrix (1999) e Jogos Vorazes (2012). Entretanto, na obra de Afonso Cruz, a distopia se modela na frieza do cotidiano mercantil que ironicamente possui relações comuns com a vida real.

A obra do autor português é construída a partir de alguns mecanismos de inversão. O primeiro deles, como citado, é a própria linguagem. 

O enredo metafórico ganha o leitor nas primeiras páginas e cria um contraste com aquele mundo mais utilitário. 

Por isso, a crítica, estruturada por meio da poeticidade, é o elemento mais marcante do texto e um dos fatores que estrutura a distopia na obra.

Além disso, ainda no nível linguístico, há uma inversão na ordem entre humano e animal nos dois grupos, a qual estabelece uma hierarquia.

As pessoas comuns são desumanizadas, não possuem nome e, assim, compreendemos o fator social, que reflete como funcionam as relações humanas nessa realidade. 

Enquanto os poetas também sofrem uma segunda camada de desumanização ao serem tratados como animais domesticados por essas famílias. 

A linguagem fabular cria o absurdo na medida em que nos entrega uma resposta alinhada à humanidade que nos falta. 

Por meio da poesia, a revolução pessoal e social começa na mesa de jantar dentro de casa, encorajando a liberdade de escolha e o incentivo ao pensar autônomo e crítico.

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