Análise: A Diferença entre Sucesso e Qualidade nas Mídias

"Se algo faz sucesso, é porque é bom". Com certeza você já se deparou com essa afirmação. No entanto, engana-se quem acredita que a popularidade de uma obra seja um selo definitivo de sua qualidade.


Por: Juliano Santos 



Em seu livro Jornalismo Cultural, o jornalista Daniel Piza observa:


“Há dois equívocos aí. Primeiro, é preciso definir o que é uma coisa boa. Se uma coisa boa for aquela que tem qualidades intrínsecas, que não dependem de modismos, então muita coisa de sucesso não é boa, porque é esquecida em alguns meses e substituída por outra. O outro equívoco é supor que não existam várias modalidades de sucessos.”



 Daniel Luiz Toledo Piza (1970 - 2011) foi um  jornalista, escritor e crítico de artes plásticas brasileiro. Estudou Direito na Universidade de São Paulo. Cobriu cultura no jornal O Estado de S. Paulo, em 1991. Foi editor do caderno de cultura da Gazeta Mercantl. Foi comentarista esportivo na Rede CBN. 




A partir dessa premissa, compreendemos que o sucesso não torna uma obra necessariamente superior, assim como a falta dele não a define como ruim. A diferença reside na construção das narrativas e no público-alvo. Para discernir o valor de uma produção, é preciso analisar o contexto: as facilidades tecnológicas atuais, por exemplo, moldam o que chega ao topo das paradas.


Na música contemporânea, a ascensão das redes sociais e dos vídeos curtos criou uma nova métrica de êxito. O modelo atual prioriza composições genéricas, com refrões repetitivos e melodias de fácil memorização, projetadas especificamente para a viralização. Embora esse "comodismo" rítmico não torne a música descartável de imediato, ele sacrifica um pilar fundamental da indústria cultural: a originalidade.


Um exemplo prático desse fenômeno foi o lançamento de “Jetski”, de Pedro Sampaio, MC Meno K e Melody. Embora a faixa apresente uma produção competente, ela se apoia em uma estrutura previsível e coreografias milimetricamente pensadas para o looping das redes sociais. É um produto feito para o consumo rápido, consolidando-se como o hit do Carnaval 2026 através de uma aposta no seguro, evitando qualquer risco artístico.


Essa "tiktokização" não se limita à música; ela se infiltra profundamente  no cinema. Muitos estúdios abandonaram a busca por identidade em favor de fórmulas que já funcionaram anteriormente. O resultado é uma saturação de personagens que são meros estereótipos, carentes de dualidade humana. Quando o público se depara com figuras que são apenas "totalmente boas" ou "totalmente más", perde-se a verossimilhança e, consequentemente, a capacidade de identificação real.


Nesse cenário, a produtora A24 destacou-se por resgatar formas inovadoras de contar histórias. Contudo, até mesmo a inovação corre o risco de se tornar uma armadilha. Hoje, existe uma "estética A24" tão definida que beira a repetição. Isso levanta uma questão: até que ponto a manutenção de uma identidade própria justifica a repetição de temas?


A recepção do público é um termômetro complexo. Filmes como os de Adam Sandler, frequentemente exibidos em tardes de domingo, cumprem com maestria o papel de entretenimento funcional: são fáceis de compreender e proporcionam diversão momentânea. São "bons" no que se propõem, mas raramente buscam ser "arte transformadora".


Em contrapartida, produções com enredos densos ou propostas experimentais, como as da própria A24,  exigem uma atenção que o público em busca de distração casual nem sempre está disposto a oferecer. Para esse espectador, o conteúdo complexo pode ser percebido como "ruim", evidenciando que a qualidade é, muitas vezes, uma questão de expectativa e contexto de consumo.


Esse fenômeno de esvaziamento da dualidade também se transpõe para a TV aberta. O remake de Vale Tudo (2025), escrito por Manuela Dias, exemplifica essa perda de nuances. Enquanto a versão original da década de 80 tornou-se um marco pela sua crueza, a nova versão enfrentou críticas pela simplificação de seus protagonistas.


Taís Araújo e Bella Campos como Raquel e 
Maria de Fátima no remake de "Vale Tudo" / Divulgação Globo 


A Raquel de Taís Araújo, por exemplo, foi reduzida ao estereótipo da honestidade ingênua, sem as camadas de imoralidade natural que tornam um ser humano verossímil. Por outro lado, a Maria de Fátima (Bela Campos) destacou-se justamente por sua ambiguidade; o público identifica-se com o desejo de ascensão, mesmo por caminhos questionáveis.

Embora o remake tenha alcançado números expressivos de audiência, faltou-lhe a originalidade de uma narrativa que não fosse apenas "enlatada".


No momento em que um material se rende a fórmulas prontas, ele abdica de sua própria voz para mimetizar sucessos passados. Como defendido por Daniel Piza, o perigo de uma obra pautada apenas no modismo é a sua efemeridade: assim que a próxima tendência surgir, a anterior será prontamente esquecida, deixando pouco ou nenhum legado para a cultura.


Postagem Anterior Próxima Postagem