"new avatar" é o terceiro álbum da artista, sucessor do aclamadíssimo Raven (2023).
Por Gabriel Nunes
Já dá pra sentir logo de cara que esse é um trabalho noturno, só que não aquele noturno de balada, de pista suada e luz estroboscópica. É um noturno mais recolhido, quase solitário.
O disco empurra o universo sonoro de Kelela pra um lugar mais terreno, com guitarras se misturando a synths cristalinos e ritmos de house, enquanto ela olha pra um mundo que se recusa a dar respostas fáceis.
E o interessante é que, mesmo com esse pano de fundo mais denso, o disco escolhe não seguir a direção caótica, a contenção emocional é a verdadeira direção do álbum. É exatamente essa quietude controlada que dá o clima solitário que a gente sente ouvindo.
Não dá pra dizer que "new avatar" é um disco que reinventa sua produção. Alguns arranjos e algumas escolhas líricas soam familiares, ecoando bastante o que já foi feito em Raven, é a primeira vez que um disco de Kelela não parece introduzir algo realmente novo ou inovador, mesmo sabendo que Take Me Apart e Raven são álbuns tão únicos que seriam praticamente impossíveis de recriar. Isso não pesa contra o disco.
As músicas continuam excepcionalmente boas mesmo sem tentar reinventar quem a Kelela já é.
E tem a questão da estética, que pra mim é o que realmente define esse álbum. É um trabalho chiquíssimo, fino, elegante, do tipo que não entrega tudo de primeira. Você escuta, guarda, deixa quieto por uns dias, e só depois começa a entender de verdade o que ouviu.
O álbum vai se provando como coeso e fascinante, confirmando Kelela como uma artista singular, sempre disposta a desafiar os próprios limites e expandir sua identidade.
Tem também quem aponte que a escrita nesse disco é a mais emocionalmente exposta da carreira dela até aqui, o que caminha bem junto dessa ideia de estética "cara". A ideia de ser algo fino e chique é porque exige investimento emocional de quem escuta.
Acredito um pouco que os features do disco (incluindo o de PinkPantheress) não acrescentam muito às respectivas faixas, a produção às vezes estica momentos que deveriam ser mais curtos, criando um efeito repetitivo. São ressalvas pontuais, mas que fazem sentido dentro da mesma lógica, já que é um disco que pede paciência.
No fim, "new avatar" é um álbum pra ouvir tarde da noite, sozinho, deixando a elegância dele fazer efeito aos poucos. Kelela não precisa provar mais nada, e talvez seja justamente por isso que ela consiga se dar ao luxo de fazer um disco tão contido, tão fino, tão devagar.