Crítica| Detour (Rare N’ Deluxe): Kim Petras e o renascimento de uma popstar.

Kim reencontra sua rota ao fazer um desvio em sua carreira e em sua sonoridade.

Por Guilherme Campos

Kim Petras em imagem de divulgação do álbum Detour. Reprodução/Instagram.

O álbum "Detour”, lançado originalmente em maio de 2026, significava muito mais do que a volta de Kim Petras às plataformas. Era, também, o renascimento de uma cantora que, por muito tempo, tentou ser a estrela de sua própria obra. Marcado por atrasos de lançamento, discussões com a Republic Records e um pedido público de Kim para deixar oficialmente a gravadora, “Detour” nasceu cercado de curiosidade em meio aos fãs. 


O resultado foi um álbum que, apesar dos números modestos em stream, se destaca pela personalidade e por abordar temas pessoais de Kim de uma forma criativa. Com a ajuda de produtores escolhidos a dedo, como Margo XS, Nightfeelings e a dupla Frost Children, Kim apostou em um pop experimental, mas que abre espaço para sons mais comerciais, como o sucesso Need for Speed. 


Sendo creditada em todas as músicas, seja por composição ou produção, Kim trouxe um álbum coeso em sua própria estrutura. A repercussão em torno de “Detour” ganhou força com o lançamento de “Detour (Rare N’ Deluxe)”, em setembro de 2026, que adicionou quatro músicas inéditas ao projeto, além do single Pop Sound, apresentado anteriormente.


Foto: Cameron Driskill


As novas faixas

Apesar das adições, “Detour (Rare N’ Deluxe) continua buscando o mesmo conceito do seu antecessor: explorar as mudanças de ritmos. As novas faixas conversam com as outras 13 músicas, reforçando a identidade do projeto.


Pop Sound, como a faixa inicial do álbum, cumpre bem o papel de introdução. O caráter explosivo, com a presença marcante de sintetizadores, conversa diretamente com a faixa seguinte, Detour, criando um início impactante. 


Analisando o nome, Pop Sound, também soa como uma porta de entrada para a sonoridade do álbum. Kim Petras realiza uma crítica a mecanização da indústria musical, e como os artistas são constantemente moldados para atender certas demandas do mercado. A frase factory girl (garota de fábrica), pode ser entendida como uma metáfora à sua situação com a Republic Records, na qual a própria disse ter perdido o controle de sua carreira devido às restrições da gravadora.


Kim Petras para a divulgação de Detour (Rare N’ Deluxe)


Em Rare N’ Deluxe, faixa homônima ao álbum, o som apresenta uma conversa direta com músicas como DTLA e 101. A batida pesada, as trocas de ritmo, a ostentação presente na letra. A ideia combina muito com “Detour”, principalmente relacionado a persona que Kim cria no álbum.

Like a Cherry explora mais a sensualidade. Com um beat suave e provocativo, é quase uma extensão de Basketball, produzida por SOPHIE, a rainha do hyperpop.


Porém, ao chegar em Autobahn, existe o primeiro problema do álbum. Numa estética Y2K, a música não tem um instrumental marcante nem grandes mudanças nos vocais de Kim. Por vezes, aparenta ser maior do que precisa, mesmo que tenha apenas quatro minutos. No fim, é um som monótono, o que não combina tão bem com a estética de “Detour”.


What a Night, por sua vez, é uma ótima faixa de encerramento. Tem o clima que “Detour (Rare N’ Deluxe)” precisa para um desfecho: o de uma grande festa eletrônica com direito a open bar gratuito nos últimos trinta minutos. É muito divertida e, mesmo que não seja frenética como Freak It, faixa que encerra o álbum anterior, mantém o mesmo legado de terminar o projeto em seu ponto alto.


Foto: Charlie McHarg


Considerações finais

Portanto, “Detour (Rare N’ Deluxe)” pode não ter uma faixa poderosa como Brutalist, um desabafo pessoal de Kim Petras sobre a relação complicada de sua família com sua identidade de gênero, ou um electropop tão divertido quanto Need for Speed, mas adiciona músicas que agregam valor ao projeto, apresentando novas personas e ritmos que Kim ainda pode explorar posteriormente.


Ao enxergar esse álbum como o renascimento de uma cantora pela independência de sua arte, a era Detour como um todo se torna muito mais potente. Kim Petras não só escolheu os próprios colaboradores e compositores de suas faixas, como também foi atrás de patrocínios para os videoclipes, pagou pela mixagem e pela produção e, quando a Republic Records decidiu não financiá-la mais e adiou por meses o lançamento do álbum, assumiu os custos de diferentes etapas da realização e divulgação do projeto.


Pensando no deluxe como a finalização de uma era que Kim Petras sempre imaginou, as novas faixas ampliam as possibilidades e reforçam a sensação de que Kim não precisa encontrar uma única identidade musical, mas que pode explorar diferentes estilos a sua maneira. 


No contexto de “Detour”, a era apresenta um desvio de tudo o que Kim Petras havia feito até então. O destino final, justamente, é quando ela se permite ser a popstar que sempre quis ser, fugindo dos moldes propostos pelo mercado musical.


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