Crítica | "Lanternas": O herói mais cósmico da DC se afasta para um retiro introspectivo no sul dos Estados Unidos em um “buddy cop” de mistério inspirado em True Detective

Mudança é a palavra certa para descrever a série, que é liderada pela equipe criativa formada por Chris Mundy (Ozark e True Detective), Damon Lidelof (Watchmen e Lost) e o renomado autor quadrinhos Tom King, levantando grandes polêmicas que dividiram os espectadores durante as 8 semanas de transmissão.


A era de prata dos quadrinhos foi determinante para que a DC estabelecesse, em 1959, com a reformulação do personagem lanterna verde todo um universo lúdico e cósmico. 

Junto à introdução do personagem Hal Jordan, fomos apresentados à tropa dos lanternas verdes, uma corporação de policiais intergalácticos que utilizam o poder da força de vontade canalizada em um anel de energia verde. Uma mudança completa da versão da era de ouro, onde o personagem Alan Scott tinha poderes mágicos herdados de uma lanterna verde mágica falante.

Somos apresentados a dupla formada pelo velho e cansado Hal Jordan (Kyle Chandler) e seu substituto em treinamento John Stewart (Aaron Pierre), investigando um grande mistério na pequena cidade de Rushville, no interior dos Estados Unidos, relacionado a história da tropa dos lanternas verdes e seus criadores, os guardiões do universo, enquanto debatem sobre quem deveria ser o verdadeiro portador da arma da mais poderosa do universo, o anel.

A proposta simples e a pegada mais “crua” faz com que a série foque em desenvolver o mistério apresentado, e principalmente, os protagonistas - o que consegue fazer com grande êxito. 


Evitando brevemente comparações com o universo e os personagens das séries em quadrinhos do Lanterna Verde, a versão de Hal, interpretado pelo brilhante Kyle Chandler é hipnotizante, ele consegue passar visualmente e em pequenos detalhes um personagem quebrado, displicente e cansado, que mesmo estando há 30 anos cumprindo uma função, não deseja largar o posto facilmente por considerar este o seu maior propósito. 


Do outro lado, temos um personagem completamente diferente, John Stewart foi criado pelos pais desde criança para ser o Lanterna Verde, ele é metódico, obediente e obstinado a cumprir o seu “destino”. 


A série esmiúça estes dois arquétipos trazendo o papel do medo e a sua ausência sendo a força motriz que define um Lanterna Verde ideal. As grandes divergências de ideologia e personalidade entre os dois resulta em ótimas cenas que evidenciam a química entre os atores e faz com que o espectador prenda o fôlego em cada cena que pode definir o destino dos dois personagens. 


Vale ressaltar também o excelente trabalho do elenco de apoio da série, com destaque para Kelly MacDonald como a Xerife Kerry Kane - talvez a mais brilhante atuação da série ao lado de Chandler - e grandes atuações de Laura Linney como a guardiã do universo Liana, Nicole Ari Parker, como Bernadette Stewart e Ulrich Thomas como o manipulador Sinestro.


Apesar da escrita refinada e ótimas atuações, a série comete uma série de pecados, sendo o principal a falta de efeitos especiais. A história se submete a manter os pés no chão enquanto trata de personagens que podem voar muito alto. Mesmo com um orçamento generoso, se limita a conveniência do diálogo para ilustrar momentos mais lúdicos.


A falta de cenas grandiosas de ação também impactam no ritmo da série, que é naturalmente mais lento, tendo como ápice o quinto episódio, que mesmo assim não mostra muito os poderes de um personagem cuja limitação é literalmente a criatividade de quem o está escrevendo.


Outro ponto negativo, são os principais mistérios que a série apresenta, sendo divididos em dois momentos diferentes na cronologia dos eventos. A série amarra os dois muito bem, com bons argumentos, porém entrega uma resolução que parece não ser satisfatória o suficiente para o público, que passou a elaborar diversas teorias ao longo das semanas e acabou se frustrando com a entrega.


Lanternas acaba não sendo uma grande adaptação de um personagem histórico da DC, mas é uma história sólida, bem construída e cativante sobre dois personagens diferentes, mas igualmente grandiosos.


A série acaba tendo conexões pontuais com o universo compartilhado da DC, chefiado por James Gunn, mas funciona completamente - e até melhor - como um projeto separado de tudo, apesar de nos fazer querer ver muito mais sobre esses mesmos personagens. 


Aaron Pierre está confirmado para reprisar o papel de John Stewart no filme Superman: Man Of Tomorrow, programado para chegar as grandes telas em 2027. Todos os episódios de Lanternas já estão disponíveis na HBO Max.


Nota 7,5/10

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