Crítica| “Carrie” encara a modernidade e perde toda a sua estranheza

Com uma roupagem diferente, a mais nova adaptação do clássico de Stephen King acerta no desenvolvimento dos personagens, mas erra no clima. 

Divulgação / Prime Video

Adaptações das obras de Stephen King lançam todos os anos, o que é comum para um escritor tão renomado e com tantos livros publicados. Porém, apesar do reconhecimento, poucas das adaptações agradam ao autor, que costuma criticá-las publicamente nas redes sociais, não foi o caso de Carrie.


Em seu perfil no Threads, King elogiou o trabalho feito na direção. “A versão de Mike Flanagan de CARRIE é brilhante. O que foi dito sobre as redes sociais é chocante e verdadeiro”, comentou o escritor.  A produção estreou na última quinta-feira (7) e apresenta uma espécie de remake da obra clássica, sem seguir fielmente a narrativa original. 


Com oito episódios, a série acompanha Carrie White (Summer H. Howell), uma garota que descobre ter poderes telecinéticos e precisa lidar com as novas habilidades no colégio, onde é alvo de bullying, e em casa, ao lado da mãe, Margaret (Samantha Sloyan). Fanática religiosa, ela tenta de todo jeito privar a filha do que considera ser o mal da sociedade, em nome de Deus. 



Carrie e sua mãe, Margaret (à direita) |  Divulgação / Prime Video


Para quem é fã do livro, a adaptação de Mike Flanagan pode incomodar. Apesar de ter mais tempo para usar certos elementos, como os depoimentos dos alunos após o baile, os relatos de antigos moradores de Chamberlain e a relação conflituosa entre Carrie e Christine Hargensen (Alison Thornton), conjuntos presentes na obra original, a série muitas vezes desperdiça seu tempo com interações que não são levadas adiante, ou que apenas preparam para uma possível continuação. 


A maior mudança acontece no núcleo de Margaret e Carrie White. O fanatismo religioso, explorado tanto no livro quanto nas adaptações anteriores, é consideravelmente suavizado, dando espaço a uma mãe protetora e narcisista. Apesar da atuação de Samantha Sloyan construir uma interpretação própria da personagem, Margaret nunca é de fato marcante. Ela não é assustadora nem imponente, e o seu poder sobre Carrie nunca chega a representar um problema. 


A modernização também esconde o terror. A mudança de 1979 para 2026 traz novas formas para explorar o enredo de Carrie, mas isso não significa que os resultados sejam satisfatórios. O fake de Chris, criado para desmoralizar Carrie e outros alunos do colégio, é bobo e risível, e serve apenas para trazer consequências que sequer mudam a trama. O objetivo seria mostrar que Chris é uma garota impiedosa? Isso, porém, já fica evidente em suas atitudes, afinal, é ela quem começa as ofensas na fatídica cena da menstruação. 


Na verdade, o fake serve para duas coisas. A primeira: trazer um pertinente comentário social sobre pedofilia, que desencandeia uma grande consequência — que é esquecida logo depois. A segunda: iniciar a carreira de influencer conservadora de Margaret. Sim, Margaret grava vídeos com o celular na vertical, no melhor estilo Tiktok. 


É importante destacar que, nesta adaptação, Carrie não é estranha. Em 2013, quando o papel foi interpretado por Chloë Grace Moretz, a escalação da atriz já havia sido alvo de críticas por sua aparência convencional demais para a personagem. E, bem, acontece aqui de novo. Nada disso diz sobre o trabalho feito por Summer H. Howell, mas à escolha da atriz para o papel. Apesar das atitudes ingênuas de Carrie, é difícil enxergá-la como alguém à margem do grupo de Chris, já que ela se encaixa perfeitamente entre as garotas. 


Uma adição pouco bem-vinda é da personagem Emaline (Thalia Dudek). A reviravolta sobre ela é óbvia desde as primeiras interações, e sua influência como mentora dos poderes de Carrie não contribui em nada para a trama, servindo apenas como um apetrecho para a próxima temporada. Aliás, sua presença prejudica a cena mais emblemática da história, o baile de formatura. 



Emaline (à esquerda), Christine (à direita) e Carrie (de costas) | Divulgação / Prime Video


Por um lado, se a série descaracteriza certos personagens, ela acerta em aprofundar a relação entre eles. A amizade entre Sue (Siena Agudong) e Carrie é mais crível, pois não se baseia apenas na pena, mas também na empatia e na identificação. Chris ganha destaque, com uma relação mais aprofundada de seus problemas familiares e dos motivos que a levam a tomar atitudes mesquinhas. Até mesmo Tommy (Joel Oulette), retratado na obra original como o garoto popular que acompanha Carrie ao baile a pedido da namorada, tem novas camadas para apresentar. 


Flanagan usa todo o tempo necessário ao desenvolvimento dos personagens, até culminar no final tão esperado. Embora perca no quesito terror, se destaca pelo drama bem elaborado e situações que movem a trama com naturalidade. Pois, apesar de todas as críticas, é preciso admitir que Carrie é uma produção dinâmica, que em nenhum momento se torna entediante. 


Pensando no futuro da série, Flanagan acerta ao criar uma mitologia pouco explicada, mas com personagens visualmente excêntricos. O clube de mulheres com poderes psíquicos é instigante e abre portas para possíveis referências a outros livros de King, como O iluminado e Doutor sono. Trata-se de uma expansão consciente do universo, visto que, caso uma nova temporada seja anunciada, não terá mais a obra original como base do projeto. 


Portanto, Carrie é um bom entretenimento e funciona como porta de entrada para uma geração que ainda não conhece a personagem. Para aqueles que esperavam uma adaptação aterrorizante, como a versão de 1976, dirigida por Brian de Palma, pode se decepcionar com as decisões pouco inspiradas tomadas ao longo dos episódios. Para a Carrie, encarar a modernidade foi importante para a nova ambientação da trama, mas é inegável que boa parte do charme da personagem sumiu e, com ele, sua estranheza tão característica.


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