Crítica| Press Play: Apesar de alguns hits, Lisa ainda não parece ter encontrado sua verdadeira essência musical

 O novo EP da artista tailandesa é divertido, mas falta ousadia.

Lisa para o EP "Press Play” - Divulgação | Billboard

Lisa tinha um trabalho complicado. Depois de seu primeiro álbum completo, Alter Ego, ter ido muito bem de vendas, mas não ter recebido avaliações tão positivas da crítica, ela precisava mostrar suas novas facetas. No entanto, na tentativa de apresentar diferentes partes dela mesma, Lisa lançou um álbum bagunçado, com músicas que não chegavam a conversar entre si.


Claro que, em meio a tantos sons diferentes, algumas faixas alcançaram o sucesso esperado. É o caso de Born Again, com participação de Raye e Doja Cat; Moonlit Floor; New Woman, com participação de Rosalía; e, claro, a principal aposta solo do álbum, Rockstar. Para seu novo mini-álbum, Lisa afirmou buscar um pouco mais de suas origens tailandesas e de sua própria trajetória na música.


Assim surgiu Press Play, lançado na última quinta-feira (23) e composto por seis músicas. Sem participações especiais, Lisa embarca numa caminhada solo em busca de sua melhor versão. Embora tenha organizado o caos sonoro do último álbum, a cantora ainda não encontrou o seu conceito ideal. 


Foto: Divulgação | Billboard

As faixas

O EP abre com a potente Sawadika, lançada previamente e responsável por criar uma imagem pré-concebida do que seria o álbum. A música carrega uma marca registrada de Lisa, pois conversa diretamente com outros trabalhos dela, como Lalisa e Rockstar. Com uma mistura de hip-hop e pop, a faixa traz elementos tradicionais tailandeses, o que também se reflete no videoclipe, gravado inteiramente na Tailândia e repleto de referências culturais, como o muay thai e os carrinhos tuk-tuk.


Por outro lado, apesar da forte sonoridade, a letra não traz nada de novo. É como reler os versos de Money, lançada em 2021, que aborda sobre a ostentação e o poder da cantora por onde ela passa. É claro que a reciclagem de temas não é necessariamente um problema, mas acaba reforçando uma persona que já acompanhamos em titles anteriores. Sawadika diverte, mas não inova. 


Na faixa seguinte, V12, Lisa apresenta uma sonoridade diferente daquela que vinha explorando. O título faz referência a um motor recorrente em carros de luxo. Seguindo essa temática, a música evoca o universo das pistas de corrida e faz alusão a marca de carros Ferrari, trazendo na letra, mais uma vez, a ostentação e o sucesso conquistado por Lisa em seus anos de carreira. A batida eletrônica envolvente e o rap de tom mais grave da cantora combinam perfeitamente.


Infelizmente, não é possível dizer o mesmo de Cobra. O elo mais fraco do álbum é um emaranhado de sons batidos e repetitivos. A percussão movida por palmas é incessante, a ponto de se tornar irritante. O refrão, por sua vez, não empolga.


 Frame do MV de "Tarantino" - Reprodução | Youtube

Tarantino é um dos pontos altos do EP. Com referências a Kill Bill, filme dirigido por Quentin Tarantino, a música traz uma base cativante de guitarra e bateria, criando uma atmosfera pop rock com ares de faroeste, se é que isso existe. Desta vez, a letra é inventiva ao associar referências do filme à figura de Lisa. “Minhas unhas são tão longas quanto o cano de minha arma”, é um dos versos que sintetizam a proposta da faixa. O título do EP também está presente aqui, no trecho marcante: “It's a movie, baby, come and press play”.


Ainda na vibe de Kill Bill, a faixa Cut U Off utiliza o assobio característico de Twisted Nerve, também presente na trilha sonora do filme de Tarantino. É outra boa música, que demonstra como Lisa pode ir além das letras sobre ostentação. Aqui, a melodia acompanha o corte de relações com alguém que te decepciona, na qual dar uma outra oportunidade é inviável. O refrão destaca os vocais limpos de Lisa, seguidos por um rap mais falado do que cantado. O pré-refrão, na última repetição, é delicioso, e é essa imprevisibilidade que torna a música tão gostosa de ouvir. 


A última faixa, Sweat, não encerra o EP em um nível alto. Começa promissora, com um som que remete a elementos orientais, que logo se transforma em mais uma faixa genérica. Lisa aposta em uma batida provocativa, que, no entanto, se torna repetitiva rapidamente. É outra daquelas músicas que não cativam, e que pena terminar a jornada com um gosto tão amargo. 


Foto: Reprodução | X

Considerações finais

Lisa não entrega um EP perfeito, mas também não parece ter grandes pretensões. A cantora testa as melhores versões de si mesma e explora sonoridades para o futuro. Há faixas de destaque, como o sucesso Sawadika e a divertida Tarantino, mas sofre do mesmo problema do seu primeiro álbum completo: falta uma personalidade artística própria estampada do começo ao fim. Apesar disso, Lisa consegue entregar boas músicas à sua maneira, o que não esconde a timidez do EP. 


É triste dizer isso de uma artista tão carismática, mas faltou ousadia.




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