Crítica| "She's The Best": Quarto álbum de Troye Sivan mostra ser uma produção eletrizante e divertida

She's The Best, quarto álbum de estúdio de Troye Sivan, é eletrizante, dançante e divertido, mas tem uma melancolia que aparece justamente quando a festa começa a perder a graça.

Por Gabriel Nunes 


É um álbum sobre desejo, solidão e a vontade quase desesperada de viver um amor que parece existir muito mais na nossa cabeça do que na vida real. E, embora nem sempre consiga equilibrar todas essas ideias, Troye entrega um trabalho que cresce quando se permite experimentar.

Depois de Something to Give Each Other, seria fácil apostar em uma continuação direta da fórmula que fez de Rush um dos maiores momentos da sua carreira. Mas She's The Best explora outras possibilidades, brincando com texturas, guitarras, sintetizadores e referências que passeiam pelo pop alternativo e pela música eletrônica. 

A produção de Jack Antonoff, em especial, reforça uma parceria que parece cada vez mais consistente. Existe uma identidade muito própria nessa mistura de grandiosidade e intimidade, como se algumas músicas tivessem sido feitas para tocar em uma pista lotada e outras para acompanhar o caminho de volta para casa.

Em Party, Troye usa um sample de Music, da Madonna, e a referência funciona como um aceno nostálgico à música pop dos anos 2000. Existe uma conexão interessante entre os dois artistas na maneira como entendem a pista de dança como um espaço de liberdade, experimentação e construção de identidade.

Madonna ajudou a estabelecer esse imaginário do pop como provocação e celebração, e Troye parece herdar parte dessa atitude, colocando-a por uma perspectiva queer contemporânea. 

O álbum também entende que dançar e estar feliz são coisas completamente diferentes. Por trás das batidas e dos refrões, existe alguém tentando lidar com a própria solidão, idealizando relacionamentos e imaginando futuros que ainda não aconteceram. É essa contradição que torna o disco interessante. 

Troye continua sendo um artista que sabe transformar desejo em música pop, mas agora parece mais interessado no que acontece quando o desejo deixa de ser suficiente. FF é o ponto alto do álbum. A faixa consegue reunir boa parte do que funciona em She's The Best, equilibrando uma produção envolvente com a vulnerabilidade que atravessa o disco.

Existe algo especialmente bonito na  maneira como Troye transforma a ideia de um amor para sempre em uma fantasia quase palpável. Já Love So Big It Hurts tenta alcançar uma dimensão emocional ainda maior, apostando em uma construção mais expansiva e dramática. 

A instrumentação ajuda a transmitir a intensidade desse sentimento, mas sinto que a música perde um pouco o foco no caminho. A ideia é boa, e existem momentos genuinamente bonitos, mas a composição parece menos segura sobre o que quer dizer.

Esse desequilíbrio aparece em outros momentos. A diversidade de sonoridades é um dos méritos do disco, mas também faz com que algumas faixas pareçam menos essenciais para o conjunto. Troye está claramente interessado em ampliar os limites do próprio pop, e nem toda experimentação precisa resultar em uma música memorável. 

Ainda assim, existe uma diferença entre um álbum que se permite mudar de direção e um álbum que nem sempre sabe exatamente para onde está indo.

O que impede She's The Best de se perder completamente é a personalidade de Troye. Mesmo quando a produção assume o protagonismo, existe uma sensibilidade muito particular na forma como ele canta sobre intimidade, atração e insegurança.

She's The Best talvez não tenha a mesma consistência de seus melhores momentos, mas tem algo que me interessa mais do que a tentativa de repetir uma fórmula bem-sucedida. É um disco que parece disposto a aceitar as próprias contradições, mesmo quando não consegue transformá-las em grandes canções. Troye continua fazendo música para dançar, mas já não parece tão interessado em fingir que a festa resolve alguma coisa. She’s The Best - Troye Sivan 2

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