Embrafilme: Como o principal braço estatal no fomento, produção e distribuição de cinema nacional desapareceu?

  


Um dos principais braços do fomento e produção e distribuição existentes no país que desapareceu. O que foi a Embrafilme e quais os iimpactos de seu ecerramento? 


Por Juliano Santos  


Estamos durante o governo democrático de Getúlio Vargas, no início da década de 1950, onde tramita no congresso o projeto do INC (Instituto Nacional de cinema), elaborado por uma comissão liderada pelo diretor de cinema Alberto Cavalcanti. Ele queria estabelecer uma base sólida e estatal para o cinema brasileiro, visando criar um órgão que oferecesse suporte e estrutura para o cinema nacional tanto para exportação, exibição e distribuição de filmes no país, sem impor limites à presença do cinema estrangeiro , mas procurando fortalecer a industria local. Foi assim que em 1966 foi fundado o INC. Com a criação da Embrafilme, os recursos do INC são transferidos e suas funções são gradualmente absorvidas por ela, até a extinção do INC em 1975.


A Embrafilme foi criada em 1969 e foi crucial para a cultura brasileira da sua criação até  1990, atuando como principal braço estatal no fomento, produção e distribuição de cinema nacional. Ela permitiu a consolidação de uma indústria cinematográfica própria e a valorização da identidade nacional nas telas durante décadas.

A empresa foi responsável por colocar a cara do Brasil nas telas. Foi nesse período que o cinema brasileiro alcançou o grande público com sucessos massivos.A Embrafilme Financiou fenômenos como Os Trapalhões, que levaram milhões de brasileiros ao cinema e Viabilizou obras primas como Dona Flor e Seus Dois Maridos (que segurou o recorde de bilheteria por 34 anos), Bye Bye Brasil e O Quadrante.

Um dos maiores problemas do cinema nacional sempre foi chegar às salas. A Embrafilme funcionava como uma distribuidora estatal forte, garantindo que o filme brasileiro não morresse na prateleira. Ela obrigava a exibição de curtas e longas nacionais, criando um hábito de consumo de cultura própria no espectador. 

Antes da Embrafilme, o brasileiro ia ao cinema para ver o mundo pelos olhos de Hollywood. A Embrafilme mudou isso ao garantir que o público se visse na tela. Ver o Rio de Janeiro, o sertão e o subúrbio com a qualidade técnica que ela financiava deu ao brasileiro um senso de pertencimento e orgulho da própria estética. 

Ela foi o motor que transformou artistas em ícones culturais inquestionáveis. Sem o investimento da estatal, fenômenos como Os Trapalhões ou a Sônia Braga não teriam alcançado o status de "patrimônio nacional". A cultura da época foi moldada por esses rostos, que eram financiados e distribuídos massivamente pela empresa.

A Embrafilme conseguiu algo raro: colocar o intelectual e o trabalhador para assistir ao mesmo filme. Ela financiava desde o Cinema Novo (mais artístico e político) até as pornochanchadas e comédias populares. Isso criou uma conversação cultural única; o país inteiro discutia as mesmas obras, gerando uma unidade cultural que o Brasil raramente teve antes ou depois.

A empresa teve um papel crucial em adaptar grandes obras da literatura brasileira para o cinema. Autores como Jorge Amado e Nelson Rodrigues ganharam vida no imaginário popular através das lentes financiadas pela estatal. Isso fez com que a cultura literária saísse das estantes e ocupasse as conversas de bar e as filas dos cinemas.

Culturalmente, a Embrafilme projetou o Brasil para o mundo como uma potência criativa. Foi nesse período que o cinema brasileiro se tornou presença constante em Cannes e Berlim, estabelecendo a imagem de um país vibrante, complexo e artisticamente sofisticado

Economicamente, a empresa profissionalizou o setor ao tratar a cultura como uma engrenagem industrial capaz de gerar empregos, divisas e desenvolvimento técnico. Através de políticas de reserva de mercado e de uma estrutura que integrava produção e distribuição, a Embrafilme garantiu que o capital investido circulasse dentro do país, provando que o cinema nacional poderia ser um negócio lucrativo, sustentável e um dos itens mais valiosos da nossa pauta de exportação de serviços.

O período da Embrafilme é fascinante porque ele conseguiu equilibrar o cinema "de autor" (mais intelectual) com o cinema "de massa", entre os campeões de bilheteria estão:

1. Os Campeões de Bilheteria (O Cinema de Massa)


  • Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976): Dirigido por Bruno Barreto e estrelado por Sônia Braga. Foi a maior bilheteria do Brasil por mais de três décadas. É o exemplo perfeito da mistura de literatura (Jorge Amado), sensualidade e brasilidade.


  • A Dama do Lotação (1978): Outro fenômeno massivo de público com a Sônia Braga, baseado na obra de Nelson Rodrigues.


  • Os Trapalhões: Filmes como Os Trapalhões na Serra Pelada (1982) e O Trapalhão no Planalto dos Macacos eram máquinas de fazer dinheiro e garantiam a saúde financeira do setor.

2. O Prestígio Internacional e Crítico

Temos também filmes que colocaram o Brasil nos grandes festivais e mostraram nossa sofisticação estética:

  • O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969/70): De Glauber Rocha. Venceu o prêmio de Melhor Diretor em Cannes e é o marco visual do Cinema Novo apoiado pela estatal.

  • Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980): De Hector Babenco. Um soco no estômago sobre a infância abandonada que chocou o mundo e quase levou o Brasil ao Oscar.

  • O Beijo da Mulher Aranha (1985): Também de Babenco, foi uma coprodução que rendeu o Oscar de Melhor Ator para William Hurt e mostrou que o Brasil sabia fazer cinema "global".

3. O Retrato da Identidade e Política

Ainda nesse periodo tivemos Obras que discutiam o que era ser brasileiro em tempos de ditadura e transição:

  • Bye Bye Brasil (1980): De Cacá Diegues. Um road movie obrigatório que mostra um país mudando, com a chegada da televisão e a "modernização" chegando aos lugares mais remotos.

  • Eles Não Usam Black-Tie (1981): De Leon Hirszman. Venceu o Grande Prêmio do Júri em Veneza e trata da luta operária e das greves no ABC paulista. É um filme essencialmente político.

  • Xica da Silva (1976): De Cacá Diegues, que trouxe o debate racial e histórico para o centro da cultura pop da época com muito brilho e humor.

  • Cabra Marcado para Morrer (1984): O documentário de Eduardo Coutinho que começou em 1964 e só foi terminado no fim da ditadura, sendo um dos maiores documentos históricos do nosso cinema.

 O declínio da Embrafilme começou a se desenhar quando o modelo de total dependência estatal, que antes era seu maior trunfo, revelou-se uma armadilha estrutural. A indústria cinematográfica brasileira acabou se acomodando a um sistema onde o governo financiava, distribuía e garantia a exibição das obras, o que inibiu a busca por investimentos privados e a criação de uma autonomia comercial. Com o tempo, essa centralização gerou críticas sobre a concentração de recursos em um círculo restrito de cineastas, dificultando a renovação do mercado e deixando o setor vulnerável a qualquer instabilidade política ou troca de gestão no governo.

Somado a isso, a crise econômica que assolou o Brasil na década de 1980, marcada pela hiperinflação, corroeu o poder de investimento da estatal e elevou drasticamente os custos de produção. Enquanto a máquina pública sofria com cortes de orçamento, o comportamento do público mudava com a chegada do VHS e a popularização das videolocadoras, que esvaziaram as salas de cinema de rua. Esse cenário de asfixia financeira e obsolescência das salas de exibição tornou a manutenção da empresa cada vez mais difícil, transformando o que era um motor industrial em um órgão endividado e sob constante pressão fiscal.

No campo político, a Embrafilme passou a sofrer um forte desgaste de imagem, sendo alvo de narrativas que a classificavam como uma estrutura burocrática e ineficiente. A ideia de que o Estado não deveria mais arcar com os riscos da produção cultural ganhou força em meio ao avanço de ideais liberais, criando o pretexto perfeito para ataques à sua existência. Esse conjunto de fatores como a falta de fomento privado, a crise inflacionária e o isolamento político, preparou o terreno para o desmonte final do setor audiovisual que ocorreria no início dos anos 90.

O fim definitivo da Embrafilme teve como figura central o então presidente Fernando Collor de Mello, que em 1990, logo após assumir o cargo, implementou um plano de reforma administrativa radical. Sob o pretexto de modernizar o Estado e combater a inflação, Collor extinguiu sumariamente o Ministério da Cultura e liquidou a Embrafilme por decreto. Para o governo da época, a empresa era vista como um símbolo de burocracia e gasto público ineficiente, resultando em um "assassinato institucional" que não ofereceu nenhuma transição ou alternativa para o setor audiovisual.

O modelo deu errado principalmente pela extrema fragilidade de um mercado que não aprendeu a operar sem a tutela estatal. Ao longo de décadas, a Embrafilme tornou-se o único pulmão da indústria, negligenciando a criação de mecanismos de financiamento privado ou incentivos fiscais independentes. Quando a canetada presidencial cortou o fluxo de recursos, o cinema brasileiro entrou em colapso imediato; sem uma estrutura de mercado paralela, a produção nacional minguou ao ponto de o país lançar apenas um longa-metragem em 1992, configurando um verdadeiro apagão cultural.

O desfecho foi marcado pelo desmonte técnico e pela entrega do mercado interno, de bandeja, para as distribuidoras estrangeiras. Com a extinção da estatal, o vácuo deixado na distribuição e exibição foi rapidamente ocupado pelas grandes empresas americanas, que passaram a dominar as salas de cinema sem qualquer resistência nacional. A Embrafilme chegou ao fim deixando para trás dívidas acumuladas e um parque técnico sucateado, inaugurando um período de "terra arrasada" que silenciou a voz do cinema brasileiro por quase meia década.


  Surgimento da Globo Filmes e o cinema brasileiro como conhecemos.  

A Globo Filmes surgiu para ocupar o vácuo de distribuição e marketing deixado pela extinção da Embrafilme, mas operando sob uma lógica estritamente comercial e privada. Seu papel fundamental foi criar um modelo de coprodução que utilizava o enorme poder midiático da TV Globo para promover o cinema nacional. Ao oferecer espaços publicitários valiosos e utilizar seu elenco de estrelas, a empresa conseguiu levar o grande público de volta às salas de cinema, transformando filmes brasileiros em sucessos de bilheteria e garantindo a rentabilidade que o setor havia perdido durante o período de "terra arrasada" dos anos 90.

Por outro lado, essa influência impôs uma nova estética ao audiovisual brasileiro, frequentemente criticada por aproximar a linguagem do cinema à das telenovelas. Ao priorizar gêneros de apelo garantido, como comédias populares e biografias de grandes personalidades, a Globo Filmes consolidou-se como a maior vitrine do país, mas também centralizou o mercado em torno de um padrão industrial específico. Diferente da Embrafilme, ela não assumiu a função de fomento artístico estatal, mas tornou-se o principal braço comercial que dita, até hoje, quais produções conseguem furar a bolha e atingir o grande circuito de exibição.


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