Na Biblioteca Cecília Meireles, música, poesia e literatura aproximam diferentes gerações e transformam a arte em espaço de convivência e memória.
Por Vitória Barros
| Imagem: Culturaz.santoandre.sp.gov |
Em um dia de cada mês, a Biblioteca Cecília Meireles, em Santo André, abre espaço para a arte e a expressão cultural com a realização de seu tradicional sarau. O evento reúne pessoas de diferentes idades, unidas pelo interesse em música, literatura e outras manifestações artísticas.
No dia 13 de junho, mais uma edição do encontro ocupou os corredores cercados por estantes de livros. Ao centro, um violão e um microfone aguardavam aqueles que desejassem compartilhar canções, poemas ou histórias. Não era necessário realizar inscrição: bastava chegar e sentir-se à vontade para participar.
Inspirado pelas comemorações juninas, o ambiente ganhou um clima ainda mais acolhedor. Uma mesa repleta de quitutes típicos, como bolos, salgados, paçocas e amendoins, foi preparada para os participantes. Entre apresentações, conversas e risadas, o sarau transformou a biblioteca em um espaço de convivência, onde a cultura aproximou pessoas e fortaleceu os laços da comunidade.
| José Estruc apresenta uma releitura da obra O Gato, do pintor, escultor e artista Romero Britto./ Foto: Vitória Barros |
O primeiro contato de José com um sarau aconteceu em 2015, na Biblioteca de São Bernardo do Campo. A experiência despertou um interesse que permanece até hoje. Desde então, ele participa mensalmente do Sarau da Biblioteca Cecília Meireles, espaço onde compartilha sua paixão pela arte e pela cultura.
Publicitário, designer gráfico, músico e artista plástico, José formou-se na Escola Protec, em São Paulo. O interesse pelas artes surgiu ainda na infância. Desde cedo, desenhava e pintava, encontrando nas cores e na música uma forma de expressão e de felicidade.
Em 2022, ao lado de um amigo, criou o projeto Uma Praça e um Violão, realizado no bairro do Pari, na região do Brás, em São Paulo. A iniciativa reunia amigos e moradores em encontros dedicados à música, com o objetivo de aproximar pessoas apaixonadas pelo violão e incentivar a convivência por meio da arte. Apesar de o projeto ter sido encerrado pouco tempo depois, a experiência marcou sua trajetória.
Hoje, José segue dedicando parte de sua rotina à produção artística. Em casa, escolhe cuidadosamente seus lápis e tintas acrílicas para iniciar cada obra. O processo começa com um esboço e, aos poucos, ganha formas, cores e vida.
Na imagem, José apresenta uma releitura da obra O Gato, do pintor, escultor e artista Romero Britto, de quem é admirador declarado. O trabalho evidencia a influência do artista em sua produção e reforça a arte como elemento central de sua trajetória.
| Aparecida Martins canta Belchior/ Foto: Vitória Barros |
Professora, educadora e fluente em espanhol, Aparecida nasceu em Salvador, na Bahia. Ainda criança, mudou-se para São Paulo com a família, motivada pela seca que castigava o interior baiano.
Foi também na infância que a música passou a fazer parte de sua vida. Ela conta que um de seus tios se casou com uma mulher apaixonada por música lírica, que costumava cantar Ave Maria, na versão de Schubert. Foi nesse momento que nasceu seu encantamento pela música.
Ao longo da vida, encontrou inspiração na obra do cantor e compositor Elomar Figueira Mello. A canção Cantiga do Estradar, lançada em 1984, era presença constante em sua casa. Até hoje, Aparecida sonha em conhecer o artista que tanto influenciou sua trajetória musical.
Ao falar sobre sua própria história, costuma citar os versos da canção Sujeito de Sorte, de Belchior:
"Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte porque, apesar de muito moço, me sinto são, e salvo, e forte’’.
Rosalia Rosa
| Rosália Rosa segurando seu livro Meu Ypê Amarelo/ Foto: Vitória Barros |
A música, já fazia parte de sua vida desde os três anos de idade, por influência do pai. Aos 13 anos, começou a cantar e também a recitar poesias, dando os primeiros passos em sua trajetória artística.
Natural do estado de Mato Grosso, Rosália mudou-se para a capital paulista em 1962. Em São Paulo, trabalhou em uma casa de modas, onde ajudava a realizar o sonho de casais ao confeccionar vestidos de noiva e ternos.
Foi somente em 1999 que realizou outro grande sonho: ingressou na Faculdade Aberta da Terceira Idade, no município de Santo André, no ABC Paulista. Incentivada por professores e colegas, passou a escrever e apresentar poemas de sua própria autoria, consolidando também sua vocação para a literatura.
Aos 84 anos, Rosália é autora do livro Meu Ypê Amarelo, obra que reúne poesias e histórias escritas ao longo de sua trajetória. A capa do livro retrata a fachada da casa onde vive há 40 anos, um lugar que também faz parte de sua história e de sua inspiração.
Mais de um século após a Semana de Arte Moderna de 1922, os saraus continuam cumprindo o papel de aproximar pessoas da cultura e da expressão artística. Em Santo André, o encontro promovido pela Biblioteca Cecília Meireles mostra que a arte permanece viva e acessível, capaz de unir diferentes gerações em torno da música, da literatura e da convivência.
As trajetórias de José Luís, Rosário Aparecida Martins e Rosália Rosa revelam como a arte pode transformar vidas. Cada um deles encontrou na música, na poesia e na escrita não apenas uma forma de expressão, mas também um espaço de acolhimento, pertencimento e memória. Em meio aos livros, às canções e aos versos compartilhados, o sarau reafirma sua importância como um lugar onde histórias são contadas, preservadas e, sobretudo, vividas.