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| Capa do álbum Hades - Melanie Martinez |
Com seu 4° álbum de estúdio, Melanie Martinez chega com os dois pés na porta criticando todo o sistema.
Por Juliano Santos
Se o Cry Baby era o pop-toy e o Portals o folk-rock místico, preparem-se, pois em Hades a Melanie chega com uma sonoridade mais densa. Dessa vez, sem a doçura com a qual estamos acostumados, e o resultado disso é um álbum grandioso do jeito que só ela sabe fazer.
Após a trilogia de álbuns com o alter ego Cry Baby, ela inicia uma nova era, desta vez como Circle, apresentando uma estética mais escura. As cores fogem daqueles tons rosas e claros dos trabalhos antigos, dando lugar a tons mais sóbrios.
Sem lançamentos desde 2023, a expectativa era alta e o resultado superou o esperado. Hades traz uma sonoridade mais pesada, com o uso de sintetizadores marcantes e batidas de trip hop misturadas a instrumentos clássicos, como a harpa e o violino, que criam um contraste evidente com os antigos trabalhos da cantora.
Mas uma coisa permanece: as críticas através de letras que não têm medo de dizer o que pensam. A diferença é que, desta vez, ela vem com os dois pés no peito. Diante da atual situação dos EUA, Melanie faz críticas diretas ao governo, à liberdade de expressão, à liberdade feminina, ao machismo, à religião e ao racismo, sobrando ainda espaço para criticar o uso de IAs.
Hades é, sem dúvida, o álbum mais "pé no chão" da cantora até agora. Se nos anteriores ela usava metáforas lúdicas para suas críticas, aqui ela remove os filtros e aponta o dedo diretamente para problemas sistêmicos do mundo real. Como foi descrito pela própria artista, o álbum é uma exploração de “armadilhas criadas pela energia patriarcal”.
Talvez uma das faixas mais polêmicas, ‘The Vatican’ é uma crítica direta à supremacia e ao conservadorismo religioso. A faixa não ataca somente a religião, mas a intersecção entre patriarcado, repressão sexual e poder. No refrão “Fall on your knees... Worship me like the Vatican”, ela inverte o papel de submissão: em vez de a mulher se ajoelhar perante o homem, ela exige ser venerada como a própria instituição sagrada.
Ela descreve a devoção masculina a figuras da igreja como algo “homoerótico” e sugere que, se esses homens aceitassem sua própria natureza em vez de projetar ódio nas mulheres e minorias, o mundo seria menos violento.
O álbum como um todo flui bem, ao ponto de mal sentirmos o tempo passar. As 18 músicas totalizam 1h10min que parecem ser bem menos que isso. Apesar da sonoridade pesada, o trabalho não é cansativo e é muito bem mixado, o que ajuda na transição entre as faixas. Agora, resta-nos esperar pela próxima cartada da Melanie, que deve chegar ainda em 2026.
NOTA: 9/10
