Hamnet é drama em sua forma mais verdadeira.
Por Thiago Silva
O novo longa da gigante Chloé Zhao é um dos dramas mais sensíveis e belos que o cinema do Norte Global poderia oferecer. Inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, Hamnet acompanha a vida de Agnes (Jessie Buckley) e William Shakespeare (Paul Mescal), ao lado dos filhos: Susanna (Bodhi Rae Breathnach) e, sobretudo, os gêmeos Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes).
Ao contrário do que se poderia supor, a obra não pretende ser uma cinebiografia de Shakespeare. O eixo da narrativa é Agnes. Ela surge como uma mulher enigmática, cujos saberes estão profundamente conectados à natureza. Essa relação com o mundo natural e espiritual molda sua trajetória emocional ao longo da história. O nascimento da primeira filha é retratado com extrema delicadeza; Zhao conduz a cena com tal sensibilidade que nos faz experimentar aquele instante sob a perspectiva da personagem.
Se o primeiro parto é atravessado por afeto e conexão, o segundo carrega desconforto. Jessie Buckley transmite a dor de uma mãe que dá à luz em circunstâncias indesejadas. Com o passar do tempo, o longa revela o amor imenso dedicado aos gêmeos por Agnes. A fragilidade de Judith passa a assombrar Agnes, como um fantasma da morte sempre à espreita. A atuação de Buckley, aliada ao roteiro assinado por O’Farrell e Zhao e à sua direção precisa, transporta o público para esse estado contínuo de angústia que define a vida da protagonista.
Como um romance histórico inspirado na vida de Shakespeare e de Anne Hathaway (aqui chamada Agnes), o contexto social permanece durante toda a trama. Desde a partida de Shakespeare em busca de reconhecimento profissional, da relação íntima de Agnes com os saberes naturais — vistos pela comunidade como bruxaria — ou ainda, com a presença da grande antagonista da história: a peste bubônica.
Historicamente, a peste devastou a Inglaterra e instaurou um pavor coletivo, sentimento que o longa retrata com contundência. O temor da morte contamina também a vida de Agnes — embora, na verdade, jamais a tenha abandonado.
Em uma das sequências mais duras e emocionantes, Hamnet implora para que a morte o leve no lugar da irmã. A construção estética desse momento é arrebatadora. As cenas que se seguem são dilacerantes: o espectador tem a sensação de habitar o corpo daquela mãe, partilhando a perda de um filho. Mais uma vez, destacam-se as atuações intensas, o texto afiado e a condução gigante de Zhao.
Hamnet é uma obra sobre o amor, mas, acima de tudo, sobre o luto. Buckley e Mescal compõem atuações impressionantes, transformando o público em testemunha íntima dessa relação — como se estivéssemos diante de um casal em terapia, acompanhando suas tentativas de vivenciar o luto e encontrar conforto um no outro. Nem Agnes nem Shakespeare poderiam esquecer Hamnet.
Durante todo o longa, a direção, o roteiro, a fotografia, o som e o elenco convergem para criar uma carga emocional profunda: desejos, afetos e o luto que atravessam cada personagem. O grande destaque é, sem dúvida, Jessie Buckley. Ela não apenas interpreta Agnes — ela a encarna.
Chloé Zhao entrega uma direção potente e, ao lado de Maggie O’Farrell, constrói uma obra que provoca e emociona, convidando o público a refletir sobre o luto: ele é racional? Pode ser compreendido pela lógica ou apenas sentido? Todos o vivenciam da mesma forma? Que peso carrega?
Fazia tempo que um filme não me comovia tanto. Nada me preparou para as lágrimas que derramei nem para a experiência de sentir tão de perto a dor de uma mãe.
NOTA: 10/10
